sábado, 28 de fevereiro de 2009
na tabacaria, antes do carnaval chegar...
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009
impermanente.. olhar

ela apareceu assim, do nada, e do nada ficou a me olhar. seus olhos assim, mirando um nada me olhavam para além de mim. olhavam mais do que me viam. e eu, assim, sem nada, sentia-me olhado por um nada a ser visado. sem aviso prévio e sem previsão do porvir, fico eu no vazio de não saber o que olhar. e lá, onde nada havia, continua contínua olhada a mirar-me. contíguo vazio de instantes sublevados nos atos de mirar. ser mirado sem ter a mira do alvo certo. parece que desaparece quando pressinto o olhar. presente sem futuro. um obscuro objeto. que desejo tão distante e por conseguinte tão sublime sentir olhado. desejado o olhar se vê visto e transpassado pelo ato suspenso. intervalo. intermédio. um e outro não estão. percebe-se a presença na ausência mirada ao acaso. e se olham e não se vêem. mas se percebem onde não se querem. mas se sabem querer. parece, pelo desaparecimento, que de fato não há ato. e, por debaixo do pano, por sob a pele, o calor humano esfria a razão. insano o coração quer bater. mas, abatido, sente-se querido, por não saber de si o sentido exato disto. existe, na impermanência a sublimação do gozo. gozado, olhado e revisto. entregue por querer... mas, ela, desaparecida do nada... em qualquer parte poderá reaparecer. uma fotografia desbotada registrada na memória... panos abertos ao vento da maré alta. navegação indefinida em mar morto - motor da saudade.
sexta-feira, 19 de dezembro de 2008
O PRIMEIRO CONTO VAMPIRO
Segunda-feira, Dezembro 15, 2003
O PRIMEIRO CONTO VAMPIRO
O sono o deixou. A cama estava fria. A manhã anunciava um novo dia. A noite se despedia lentamente. As horas passavam com a lentidão do infinito. Nada acontecia em seus sonhos... Ele se levanta, vai ao banheiro e olha-se no espelho. O seu reflexo é uma biografia escrita na pele do seu rosto. Marcas do tempo gravadas pela corrosão da vida e experiências vividas. Seu olhar sonolento constata tudo o que vê. Adormecido ainda, ele passa água em seu rosto e caminha para a sala. Não há nenhuma luz acesa e a pouca luminosidade que vem de fora, por entre as frestas da veneziana da janela deixa o ambiente banhado por uma leve penumbra. O que se vê são coisas espalhadas por sobre os móveis. Percebe-se que tudo está desarrumado organizadamente. Todas as coisas estão em seus devidos lugares mesmo que isso não represente uma arrumação convencional pela visão de decoração de casa. É, não há poeira ou qualquer marca de desleixo. Somente as coisas não estão arrumadas em ordem alfabética ou qualquer outra orientação. Tudo parece estar e ser a extensão do usuário como se o interior da pessoa fosse elo direto com as coisas externas. Se o pensamento buscar um livro, este estará sobre a mesa de canto e sob um cinzeiro. Assim, todas as coisas estão em seus devidos lugares. Mesmo que espalhados por aqui e acolá.
Ele se senta. Tem em sua mão um café quente que acabara de fazer. Bebe calmamente enquanto olha o infinito. Seu olhar traspassa as paredes da casa e o pensamento divaga como que sonhando. Um estado de contemplação forçado pela falta de sono e incerteza no porvir. Uma noite difícil anunciando um dia incerto. O café chega ao fim. Ele recosta a cabeça no encosto da cadeira e fecha os olhos. Ele sente seu corpo flutuar... Flutua como se voasse, mas não é um vôo tranqüilo. Algo o incomoda e desperta uma ligeira dormência. A noite ainda é presente e o escuro que precede a manhã deixa tudo em estado letárgico. Derrepente ele vê uma janela entreaberta. As cortinas balançam suaves ao sabor de um breve sopro do vento. Podese perceber o interior. É um quarto de dormir. Pouca coisa se vê. Um armário, uma cômoda. Alguns quadros pendurados nas paredes. Sobre a cama uma pequenina estante onde se vê alguns vidros pequenos de remédio. Ele se sente convidado a entrar.
Já dentro do quarto ele fica de pé ao lado da cama. Uma transformação acontece. Seu corpo que antes voava, torna-se novamente humano. É como se ele tivesse asas e voado, ele pensa. E chega mesmo a acreditar que uma de suas asas estivesse ferida. Isso explica a dor que sentiu em um dos lados do corpo enquanto flutuava. Realmente há uma pequena ponta de dor incomodando o seu ombro. Mas agora eles já têm os olhos acostumados à luz ambiente do quarto. Ele pode ver um corpo deitado sob um leve lençol branco sobre a cama. É o corpo de uma mulher jovem. Ela tem cabelos negros, liso e cortado à altura da nuca. A sua pele é branca. Os seus ombros estão à mostra. Ela veste uma camiseta “regata”. Sua pele reluz ao frágil toque de um raio de luar. A dor do braço já não é tão intensa. Ele suspira e continua observando. Em um movimento suave e rotativo ela muda de posição deixando-se ver mais um pouco do seu corpo. Ela está sem camisola. Somente uma calcinha branca lhe cobre o sexo. É um belo corpo com curvas bem delineadas. Neste momento ele experimenta uma sensação estranha em seu corpo. Sua boca é umedecida pela saliva intensa e viscosa. Um calor percorre todo o seu corpo. Seus olhos estão mais aguçados e vê tudo com mais nitidez. Consegue até penetrar magicamente no corpo desta jovem mulher que esta a sua frente como quem lê seus pensamentos. Sim, ele consegue sentir seus pensamentos. É como se estivesse sendo convidado. Uma sedução envolvente envolvendo-o agora sem que ele saiba o porque. Novamente ela se move. Agora a sua nuca alva está bastante visível entre o lençol e os seus negros cabelos.
Um vento frio entra no quarto balançando as cortinas e tocando a sua face. Mas ele não sente frio e sim uma vontade vinda do interior do seu corpo. Esta vontade é imperativa e o faz sentarse ao lado dela. Sentado ele está admirando as curvas e suavidade deste corpo tão sedutor. A sua mão desliza pelo lençol até tocar a pele dela. Este contato o faz salivar ainda mais intensamente. Então ele acaricia os ombros sentindo todo o frescor desta carne macia. A palma da sua mão acompanha as curvas do corpo como um escultor modela sua obra em barro. Ele puxa o lençol para poder ver melhor todo o corpo. Agora sim, ela está totalmente visível ao seu olhar. Pés, pernas, coxas, braços, enfim, ela totalmente ao prazer do seu olhar. Um arrepio percorre a sua espinha e estilhaça seu cérebro. As suas duas mãos estão nos ombros dela. E descendo percorrem as costas como quem a massageia. Ela está imóvel como que por encantamento. Somente moveu o rosto para o lado. Sua expressão é doce e branda. Parece mesmo consentir com o que se passa. Como o toque e carícias. Ele a olha e deixa as suas mãos deslizarem ainda mais até chegarem à barriga e sente seus dedos tocarem o umbigo. Elas sobem mais e tocam os seios. Ela suspira.
postado por: O Anjo
segunda-feira, 4 de agosto de 2008
A língua lambe

da rosa pluriaberta; a língua lavra
certo oculto botão, e vai tecendo
lépidas variações de leves ritmos.
E lambe, lambilonga, lambilenta,
A licorina gruta cabeluda,
e quanto mais lambente, mais ativa,
atinge o céu do céu, entre gemidos,
entre gemidos, balidos e rugidos
de leões na floresta, enfurecidos.
Drummond
segunda-feira, 28 de julho de 2008
A boca é para o beijo.

Um medo grande e indecifrável. São as horas. Todas as horas tem um efeito. Mãos gélidas. Um momento, por favor, preciso matar a fome. Há bocas. Várias delas num só corpo, com uma só alma. Com medo. Todas as bocas se manifestam. É o pensamento inútil para o momento. A boca é para o beijo. A boca é para matar a fome. A fome está para matar a boca. Dois corpos tem mais bocas que um. Dois corpos, tendo mais bocas, sentem mais fome. Os corpos alimentam a fome da boca. Essa é a hora. Te esperaria na varanda, se você viesse. Mas você tem medo do meu medo. Todo mundo tem medo do que não conhece. Eu só conheço as minhas bocas. Todas elas tem fome. Lábios são para o desejo. A língua aproveita o ensejo. E o medo cresce. Florescem as campanas do corpo com todas as bocas em flor. Há tanto tempo não te vejo. O arrepio que percorre não socorre. Um desejo insuportável me consome. Eu sei que você tem fome. Eu mataria a sua fome pela boca que te come.
saliva a boca que molhada pela boca úmida que tem fome...
o anjo
sábado, 5 de julho de 2008
o anjo
O Sol ainda está preguiçoso nesta manhã. Pingos de chuva ainda caem no telhado da velha casa e fazem um tilintar das gotas sobre coisas e o chão molhado do quintal. No quarto, um anjo dorme sobre a cama entre lençois revoltos. A face tranquila e senera de moça delicada que tem segredos escondidos neste pequeno corpo angelical. Ela dorme assim, suave e macia. O cheiro de sua pele é sensual e sedutor. Um convite a delirinhos e sonhos surreais. O seu corpo tem segredos úmidos de desejos escondidos. Apelos por todos seus poros transbordam pela pele em arrepios de frio febril da medo muito grande de prender a respiração . Ela, assim deitada, "alone", de costas no leito oferta para Deuses maiores um universo de fantasias. Os seus joelhos dobrados para fora da cama deixam pender a perna para fora da cama até que os pés toquem no chão. Os lencóis revoltos convidam a sonhos maiores. A sua face sorri um enigmático sorriso. Nos lábios e olhos bem fechadinhos e boca entreaberta, dela descem gotas de saliva como rimas de poesia... Qual linguagem para saber estes poemas?Sonolenta ela está ao acordar... muito e grandes desejos povoam nirvanas ancestrais.
Ah, tenho medo de morrer... Muito medo!
quarta-feira, 18 de junho de 2008
acontece na madrugada

As contas pagas e por pagar são detalhes de sua rotina do dia a dia. A fumaça do fumar dança pelo ar. Sombras e sonidos paralelos que querem se encontra em um lugar distante de si. Alguma coisa está no ar e fora do controle. O desejar o proibido até de se pensar. Alguma coisa dançando no ar. Embriagante noite louca onde coisas soltas assustam qualquer sonhar desperto. Olhos abertos. Vontade louca. Voz rouca no blues sussurrado ao ouvido do vento. Olvidado. Cuidado com o querer. Vontade forte, muito de correr. Isso da medo. Não se pode pontuar. Não se deve exclamar. Tão pouco perguntar o que diz a voz do vento. Sob a lua de hoje que é cheia e seduz ouve-se o lamento apertado. Clave de sol e novamente o medo de acordar. Treme por sobre a pele o sentir por sob a pele. Repele e atrai
o anjo
sexta-feira, 13 de junho de 2008
noite profana

A noite esquenta quando o frio fora do quarto corta o pensamento daquele solitário que caminha na calçada vazia. Ouvem-se ecos dos seus passos. O calor aquece a face e disfarça o tremor que vibrou por segundos no corpo. São pensamentos distantes e profanos que vieram trazidos pela voz do vento. Ele, o vento, sussurra palavras muito proibidas e sigilosamente secretas. São aquelas palavras que umedecem de saliva a língua que tenta se conter na boca, no céu da boca, onde estrelas saltitam como crianças travessas. As palavras estão na ponta da língua e querem sair em pensamentos que não se devem expor. Coisas escritas em papel de pão e que são jogadas nas gavetas esquecidas da memória. Não olha, não vê, não para de pensar. Parado, quase um desmaio de medo de pensar em qualquer coisa. Quase mergulha em divagações de sonhos de além muros. Quase morre. E quem tem medo de morrer quando a vontade é de correr muito? O pensamento começa a correr desenfreado por estradas, colinas, morros, horizonte em belo por do sol. Quase madrugada. Esta é a hora de se estar com medo. Esta é a hora de se estar bem consigo mesmo. Esta é a hora em que tudo acontece em segredo. Esta é a hora! Na cama rolando sob lençóis finos o corpo delgado serpenteia. Rola e se mostra por partes em sonhos que dançam com fumaça na suave brisa. A Lua se mostra nua, despida de preconceitos neste leito de baco. Ouve-se na voz do vento uma canção distante de antigos amantes. Novamente o calor profano quer remexer a quietude do corpo em sonolento repouso. As curvas são delicadas entre os pelos, apelos e desejos escondidos nos recantos clandestinos da carne crua. Há sombras e penumbra. Dança a luz da vela e revela, acaricia o olhar perdido mergulhado em fantasias de outras terras. Um som gemido brilha no luar. Um solo de trompete invoca o ritual dos anjos. Jazz... Fecha-se os olhos. Tudo é muito nesta hora de calor. Tudo é muito e é agora! Muito quente, muito úmido, muita água na saliva, na boca da noite profana. Uma nuvem cobre a lua que se esconde nesta madrugada. Medo... ?
LOBISOMEM DE PALAVRAS
quarta-feira, 11 de junho de 2008
O Vampiro
Charles Baudelaire
tradução Jamil Almansur Haddad
Tu que, como uma punhalada,
Entraste em meu coração triste;
Tu que, forte como manada
De demônios, louca surgiste,
Para no espírito humilhado
Encontrar o leito e o ascendente;
- Infame a que eu estou atado
Tal como o forçado à corrente,
Como ao baralho o jogador,
Como à garrafa o borrachão,
Como os vermes a podridão,
- Maldita sejas, como for!
Implorei ao punhal veloz
Que me concedesse a alforria,
Disse após ao veneno atroz
Que me amparasse a covardia.
Ah! pobre! o veneno e o punhal
isseram-me de ar zombeteiro:
"Ninguém te livrará afinal
De teu maldito cativeiro.
Se te livrássemos um dia,
Teu beijo ressuscitaria
O cadáver de teu vampiro!"
o convite
inteiramente.. .
[todinha]
ele pressente
quase presente
pois sente
na pele esquecida
do sentir vida
o que de vida foi vivida
mas assim
quente
como um calor distante
ele
lobo errante
ouviu o convite
que trouxe a voz do vento
percebe
estar perto o momento
mas não ousa movimento
medo e tremor
calor febril nas veias
palpita
distante
um coração
ouve no estampido
entre frestas da janela
um delicado sorriso
você vem?
vem dos lábios dela
quarto meia-luz
olhos semi-serrados
leito revirado
pele em poesia
suave aroma
palavras são ditas
em surdina
palavras são proibidas
beijos perdidos
entre raios de luar
relva fina molhada
noite alta
madrugada
o anjo
na linha do horizonte, mergulho
mergulha no infinito
mar de estrelas
aquela diminuta
ilha
que faz das rimas
ímãs de poesia
que assustam
que ardem e queimam
por dentro
da madrugada
com calor de mil e um raios
cintilante e suave
molha com seu orvalho
todinha a relva macia
onde se deita a lua nua
que recebe os primeiros
raios de sol
que tocam como mãos vividas
sua tenra e delicada pele
com carícias e afagos
de um anjo milenar
o anjo
terça-feira, 10 de junho de 2008
quinta-feira, 5 de junho de 2008
madrugada

no frio silencio da noite
corre o corisco
rabisca o céu da boca
há faísca
esquenta
há calor
[estampido]
sobe uma sensação
[estranhamento]
no corpo
por toda a carne
sortilégio
queima e ilumina
vem dos pés
arrepia até a raiz dos cabelos
feitiço de áquila
aqui
acolá
perpassa
muralhas da china
aos recantos mais antigos
do sonhar
sonhamos
o anjo
quarta-feira, 4 de junho de 2008
a pele da cor

a tua imagem
cândida
cântico antigo
pórtico partido
sépia?!
crua
nua
ânfora perdida
no mar
no horizonte distante
no búzios
o eco
sonoro
sussuro
ouvido
na voz do vento
segunda parte
sépia?
cor do calor
cor da pele
da tua pele
do ar
rarefeito
efeito estufa
é feito
feitiço
que arrepia
que da medo
que aperta
o peito
uma saudade
vontade de mergulhar
todo
por inteiro
a pena no tinteiro
e caligrafar
serpentes ondulantes
dança do ventre






